Querida Sofia,
Ahhh, as diferenças do mundo empresarial entre a França e Angola são incrivelmente grandes… Dei-me conta assim que comecei a fazer as minhas entrevistas de trabalho e consigo detectar muitos mais detalhes desde que comecei a trabalhar há duas semanas (já? De facto, o tempo voa em Angola!)
1/ A indumentária: o que vou dizer poderá parecer-te bastante estranho, mas as pessoas prestam MUITO mais atenção à sua aparência (principalmente a roupa, mais do que a forma física) aqui em Angola do que em França. Não posso comparar as coisas do ponto de vista de empregados de loja, apenas do mundo corporate, mas garanto que há uma grande diferença, bastante palpável para mim. Em França, era bastante normal ver os homens a irem ao trabalho de polo ou t-shirt e jeans ou por vezes de facto com a camisa aberta, mas NUNCA de gravata. Idem para as mulheres, quase sempre de camisa e calça, sapatos rasos, cabelo ainda molhado do duche da manhã. Quero destacar esse particular, de usarem sapatos rasos, porque a realidade é que aqui na terra mãe, é tudo ao contrário de França. Os homens estão sempre vestidos a rigor, com gravata e os sapatos brilhantes e limpos, o que lhes confere um aspecto bem mais cuidado. As mulheres NUNCA NUNCA NUNCA usam sapatos rasos, ainda não vi uma, juro por Deus. Umas usam saltos razoáveis, mas tenho visto arranha-céus nos pés destas senhoras. E além dos sapatos, as mulheres Angolanas prestam MUITA atenção ao seu cabelo, tendo de parecer o menos Africano possível. Sei que hei-de voltar a tocar neste assunto num outro dia.
Angola 1 – França 0
2/ Educação e formalidade: já falei sobre o assunto no passado. Continuo a achar isto tudo muito ridículo e não acho bem chamar de Doutor quem não estudou aqueles 3 ou 5 anos de Doutoramento para tal. Mas já me dei conta que não vou poder mudar o mundo e a maneira como ele gira por aqui. Uma pena.
Angola 1 – França 1
3/ Comida e a hora de comer: em França, se for necessário comer apenas uma saladinha ou um sanduiche no trabalho por não haver tempo para mais, não há problema, até é quase o usual. Aqui em Angola, se as pessoas não comem uma refeição quente, com arroz COM batata (sim… os DOIS JUNTOS… no MESMO prato…), sentem que NÃO comeram nada. A minha mãe disse-me no outro dia que esse sistema de apenas comer uma sandes implica “comer MUITO pão”, no entanto, aqui comem o tal arroz com a tal batata e mais um pãozinho ao lado e é normal para eles. Não compreendo esta gente neste ponto e não acho que vá mudar a minha maneira de ser tão cedo.
No entanto, algo que eu acho fantástico aqui em Angola é o facto que as empresas têm copa/cozinha, onde podemos levar o nosso pequeno-almoço, almoço, lanches, que podemos guardar no frigorífico e aquecer no microondas. Uma amiga minha de Londres que trabalhava em França explicou-me que sofreu um pouco em Paris pois levava o pequeno-almoço dela e as pessoas olhavam-na de lado. Prefiro a filosofia Britânica/Angolana neste ponto.
Angola 2 – França 2
4/ Horários: em Luanda, como as pessoas saem de casa a partir das 4h30 da manhã para chegarem ao trabalho às 7 horas (o estado do trânsito aqui é muito ao estilo de New Delhi!), pode acontecer frequentemente que cheguem ao trabalho MUITO cedo. Eu sou uma privilegiada, pois vivo pertíssimo do meu trabalho, e acordo às 7h, tenho tempo de me preparar e comer e chego sempre ao trabalho pelas 7h50. Recebo mails da empresa a partir das 6 ou 7 horas da manhã e sei que não são enviados do fundo de uma cama, a partir do Blackberry dos managers. E eu gosto muito disso. Também tem um certo impacto na minha vida pessoal, visto que todos os meus amigos estão acordados cedíssimo para ir trabalhar, por vezes são apenas 6h da manhã e já temos o nosso programa da noite todo planeado. Adoro isso! Em França, as pessoas PODEM chegar ao trabalho a partir das 8h, mas só o fazem realmente entre as 9h-9h30. Ficam mais tarde do que em Angola, mas prefiro sair como aqui às 17h, do que em França, onde só saem entre as 19h30-20h.
Angola 3 – França 2
5/ Transportes: em França, vamos ao trabalho a pé ou com transportes públicos o que é fantástico e bastante democrático, pois é com frequência que podemos cruzar com os nossos grandes chefes no metro.
Em Angola, SÓ usamos o carro pessoal, que conduzimos (no meu caso, como não conduzo – fail – o meu motorista leva-me e vai buscar-me ao trabalho todos os dias) e isso não é uma atitude boa para o meio ambiente. Outro factor, é que é criador de uma certa competição de quem tem o melhor carro e OH MEU DEUS, quem tem aquele incrível Audi ou BMW, OH MEU DEUS. As pessoas em França gostam de gabar-se pelos metros quadrados do seu apartamento, aqui em Angola, as pessoas so se medem pelos carros que têm. E, vai saber, não gosto nada.
Angola 3 – França 3
6/ Meio ambiente: em França, imprimimos os slides de Powerpoint pondo 2/4/6 slides por folha, imprimindo no recto e no verso para poupar a maior quantidade de papel possível. E depois, separamos o lixo para a reciclagem. Uma atitude fabulosa visto que as empresas são as piores consumidoras de papel! Além disso, há uma grande onda de sensibilização para não imprimir os mails sistematicamente.
Em Angola? Meio ambiente QUÊ? As pessoas imprimem TUDO… em GRANDES quantidades… TODOS OS MAILS…. TODAS AS LINHAS QUE ESCREVEM DIARIAMENTE…. Não imprimem nos dois lados das folhas e não vi nenhuma sensibilização para a reciclagem em empresas (em casas também não, devo precisar). Sinto que sentem que reciclar e a preocupação com o meio ambiente é apenas para os países mais ricos e desenvolvidos, mas sinto que vai ser preciso bastante educação ambiental quanto a isso por aqui. Infelizmente, não poderei fazê-lo sozinha.
Angola 3 – França 4
7/ E eu no meio disto tudo: ainda é cedo para julgar em que país me sinto melhor no que toca a trabalho. Se nos fiarmos aos seis primeiros pontos, vence a França, mas a verdade é que tenho 3 anos de experiência profissional em França e apenas 3 meses em Angola (em 2005). Este país e a sua maneira de ser ainda é novidade para mim, como se tivesse a descobrir coisas num lugar bastante familiar.
Mas a verdade é que no meu novo trabalho, tenho responsabilidades que nunca tive antes, sei que ainda tenho muito que fazer pela frente e sou e serei mais valorizada do que nunca (no meu último trabalho, senti que utilizaram muito pouco as minhas capacidades e conhecimentos, o que me causou bastante frustração ao sair dos headquarters do Cálcio). Angola tem oportunidades – para as pessoas que estudaram – que nenhum outro país que não seja o meu tem. E estou a agarrar essa oportunidade. Além do mais, posso ver o mar todas as manhãs da janela do escritório. E isso… não tem preço.
Angola 4+ - França 4-